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04 junho 2004 

como num blog

Uma volta pela minha(?) cidade dá-me o que de novo lhe está nas paredes.
Atrás da Biblioteca Geral da Univ. Coimbra, a cor de ouro:
"Tenho duas balas na cabeça
e não sei de que cor são
"

Junto aos Hospitais da UC:
"Caracol Religion
Poder Local mais forte no Burundi
"

Espantam-me estes exemplos de "escrita pública". Não pela mensagem que dizem mas pela mensagem que mostram. Pela meta-mensagem, para dizê-lo de modo meio tosco.
Em primeiro lugar, estes haikus urbanos mostram-nos o evidente esbatimento das certezas ideológicas, através da secundarização do conteúdo em detrimento da afirmação da mera vontade de expressão. Onde antes se procurava forçar o cumprimento da História por meio de frases galvanizadoras e, por vezes, delirantes, hoje exibe-se o exercício desossado da ambiguidade surrealizante. Liberdade, leveza, irresponsabilidade e humor ocupam o lugar que outrora cabia ao pathos da intervenção política.
Mas, ao mesmo tempo, ilustram outra coisa: como um "tipo de escrita" que se confinava à clandestinidade das portas de casa de banho - último reduto do pecado de escrever inconsequentemente - aparece hoje com uma frequência cada vez maior nas paredes das nossas cidades. Isso revela a maleabilidade com que actualmente se desenham as fronteiras entre "público" e "privado". Mas, e acima de tudo, é o reflexo profundo da equiparação do discurso político a outros discursos tidos tradicionalmente por "menores" ou "íntimos": o discurso amoroso, o discurso satírico, o discurso poético.
É nestas pequenas visões de uma tarde quente de Junho que a fragmentariedade pós-moderna se deixa olhar em todo o seu esplendor.

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