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06 março 2005 

a dialéctica e a teoria do copo de água



Leio As Clandestinas, de Ana Barradas, relato escorreito e rigoroso sobre as mulheres do PCP na clandestinidade. Retenho o excerto de um texto, publicado em 1941 no 3 Páginas, órgão destinado às "camaradas das casas do Partido", sugestivamente intitulado "Como Lenine falava do problema sexual". Nele, o revolucionário, em polémica com Clara Zetkin, crítica a 'teoria do copo de água':

"Eu assumo que a sede deve ser apagada. Mas um homem normal, em condições normais, irá tomar a água de um charco imundo para matar a sede? Ou beberá de um copo cujos bordos estivessem sujos por dezenas de outros lábios? (...) Sendo comunista como sou, não tenho nenhuma simpatia pela teoria do 'copo de água', ainda que tenha a etiqueta de 'amor livre'".

Ana Barradas anota como este "ideal da mulher que se apresenta o mais intocada possível ao seu homem", conservador e opressivo, foi de certo modo reproduzido nos meios comunistas. Levanto os olhos do livro e penso se Lenine conseguiria reformular a teoria substituíndo 'homem' por 'mulher': um homem copo, charco imundo, bordo borrado. Então sim, teria começado a aproximar-se dos ideais que defendia. Faltaria apenas uma inversão dialéctica.

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