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12 abril 2005 

top secret



O Grande Oriente Lusitano decidiu confiar a um cofre bancário um dossier encontrado no Palácio Maçonico, em Lisboa - antiga sede da Legião Portuguesa - onde constavam cerca de 3600 nomes de agentes e informadores da PIDE.
Se uma certa precaução na divulgação do documento é de todo recomendável, imagino que neste caso não será bem isto que se irá passar. Para não despertar melindres, fantasmas e coisas passadas, desconfio que o seu conteúdo irá repousar em segredo, nas covas serenas do tempo, durante muitos e muitos anos.
Não nos admiremos se isto acontecer. É, no fundo, o resultado da nossa crença que pouco ou nada aconteceu durante a ditadura. A delação e a filha-da-putice, a tortura e o medo, a morte e o silêncio, se existiram, não foi como realidade. Foi como simulacro. Como amálgama psicológica. "Todos eram resistentes... mas, ao mesmo tempo, todos pactuavam com o regime". O próprio silêncio recalcado que ainda hoje paira sobre a guerra colonial é filho desta trama. No reino dos "brandos costumes", mais vale um bom fingimento do que uma má memória.
É a isto que José Gil chama no seu último livro de não-inscrição: aquela capacidade muito nossa de olhar as coisas como se não tivessem importância, como se não fossem irremediáveis, como se não afectassem as nossas vidas. Em suma, como se não tivessem acontecido.

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