doze não é um número

A mulher que amei está cada vez mais desbotada. Houve dias em que lhe cortava as unhas dos pés. Ela sentada, sorridente, eu fazendo-lhe o esboço rigoroso do sabugo. Mas isso foi antes de me roubarem a respiração, durante as horas a que agora chamo "felizes". Depois disso veio a morte e a acusação. O tribunal afixou a sentença, anunciando que "o amante varara doze vezes a mulher com a ponta de uma tesoura". E eu, que não me lembro de nada, sei que não o fiz. Quem ama não mata de morte perfeita. Se o juíz trocasse os calhamaços jurídicos pelas evidências poéticas saberia isso. Mas não. O ilustre ignorante que me julgou condenou-me a viver num grande intervalo que começa no som sujo dos baldes e do ferro e acaba no receio de uma companhia indesejada. Às vezes tenho pena dos olhos tensos dos presos que não estão presos. Outras, tenho medo. Outras ainda, raiva. Só quando a noite regressa me liberto diante do meu poster desbotado.