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27 setembro 2005 

oito horas de nuvens por dia


O ensonado não tem olhos, nem riso, nem face nenhuma. Vive fechado na máscara que traz colada aos ossos. Quando é obrigado a deslocar-se rua fora, as pessoas evitam cumprimentá-lo. Não há nada mais indigno do que a incapacidade de transportar o próprio corpo. Curiosamente, a dada hora, cada antipático é o ensonado que havia sido desprezado e assim sucessivamente, numa vingança quase infinita. Homens sem sono não existem ou se existem duram poucos dias. Talvez por isso alguém tenha dito que as revoluções devoram os seus filhos. Ou seja, fazem-lhes a cama. É triste mas é verdade. Os homens podem ser imortais mas não podem vencer o sono. Deus descansou, Ulisseu soltou um bocejo, o Professor Marcelo dorme pouco mas dorme. Sono é sono. Até as palavras se pudessem ferravam um galhinho.

Foto: Bruno Espadana

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