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21 Outubro 2005 

conceptuário: detalhe



Todo o detalhe funciona numa dupla direcção: ora como funcionário fiel da estrutura que dele se alimenta, ora como elemento perturbador desse sistema de sentido que o enquadra e domestica. Vejamos: uma jovem está sentada na esplanada e poderíamos dizer, com rigor conceptual, que é bela. Em si, os pormenores organizam-se de modo a que o contributo de cada um seja imprescindível na harmonia observada. Mas para afirmarmos que tem "personalidade corpórea" falta qualquer coisa. Falta um modo singular de se integrar no mundo e nas coisas que só uma leitura dos particularismos permite decifrar. É necessário que um pormenor se eleve e supere, perturbando a constância das formas e criando uma sensação de desassossego superior em quem observa. Estamos, obviamente, no domínio da estética. A esta perturbação avassaladora dos sentidos, Kant chamou de "sublime". O filósofo pensava em coisas imponentes (uma tempestade marítima, era o exemplo) mas aqui o tamanho é o que menos importa. No fundo, detalhe e sublime equivalem-se, porque só aparentemente o detalhe é pequeno e o sublime grande. Ambos engolem e ultrapassam os códigos normalizados do gosto e do sentido. Uma madeixa corrupta, um olhar falsamente desatento, um modo de responder com o corpo a uma solicitação. Eis o detalhe. E o sublime.

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