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26 outubro 2005 

moscas e etc.


Havia um tempo em que eu esticava o braço e varria-as para dentro do punho. Eu era camaleão e a mosca, mosca. Como nos verdadeiros simulacros, não havia mortos nem feridos. Eu dava-lhes uns segundos de prazer, chocalhando-as no escuro, e elas retribuíam, coçando-me a palma da mão. Nunca lhes arranquei as asas, nunca as meti na sopa dos inimigos. Lembro-me que era Outono, era sempre Outono, a época, soube mais tarde, em que as moscas amolecem. Mostram-se imprudentes, chocam contra as coisas, aparvalham e deixam-se apanhar no ar. Eu vivia assim, alienado no meu fascínio pelas moscas, até ler o belíssimo texto que o Tiago escreveu sobre caracóis - os bichos anti-sexistas, os proprietários-em-curso, os animais que não são bem animais. Kundera afirmou que o grau de lentião é directamente proporcional à intensidade da memória. Na rua, o homem que pensa atrasa os seus passos. Talvez o caracol seja um olho de Deus. Lento, ranhoso e rastejante. Isto é, omnisciente. Mas uma coisa é certa: olhos, olhos têm os camaleões. E as moscas.

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