« Home | uma espécie de pequeno conto (de José Cardoso Pire... » | penitência » | literatura "heavy" » | a morte nunca existiu » | saúde (e thanatos) » | Rua da Judiaria: dois anos » | moscas e etc. » | Debord agradece » | birra » | conceptuário: detalhe » 

02 Novembro 2005 

a história é um pedaço imaginado do passado acontecido

Lisboa, 1755

As dezenas de milhares de pessoas que tentavam dormir ao relento ao redor de Lisboa têm o céu iluminado pelo clarão das chamas que já consome a Baixa. Outros não olham para trás e caminham enquanto podem. Caminharão até Santarém, outros até Coimbra ou até onde puderem. Os que trouxeram dinheiro de casa alugam um burro para lhes levar a família. Outros pagam os serviços de um galego ou de um negro. O pior ainda não tinha passado. Os que estavam encurralados no Terreiro do Paço, rodeados pelas chamas, não tinham barcos que os pudessem tirar dali. Durante o dia, os barcos evitavam chegar-se à margem, com medo de serem virados pela multidão em fuga. Depois de ter caído a noite, nem sequer se aproximavam dos refugiados do terreiro, gente perdida, cansada e que tentava, a custo, dormir em cima dos seus fardos de salvados, com um olho nas àguas do Tejo e outro no fogo do Palácio Real.

Rui Tavares, O Pequeno Blogue do Grande Terramato, um blogue que antes de ser blogue já era livro.

|