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01 novembro 2005 

uma espécie de pequeno conto (de José Cardoso Pires)


Elias (...) - Vi uma ocasião uma fita do Boris Karloff onde aparecia um pintor que coleccionava impressões digitais dos mortos. Fotograva-as a cores e fazia uma data de massa com aquela droga.
Otero, assinando o expediente da manhã: Picasso dos cemitérios, quer você dizer.
Elias: Estou a falar a sério, o tipo chamava àquilo pintura dactiloscópica, que era para impressionar. Mas um dia lixou-se porque fotografou uma mão que apareceu ao desbarato lá na morgue e, vai-se a saber, era a mão que pertencia ao segundo corpo de que o Frankenstein tinha sido feito.
Otero: Sim?
Elias: Pois, e o Frankenstein caiu-lhe em cima.
Otero: Queria direitos de autor, não me diga.
Elias: Queria a mão, era o que ele queria. Com duas mãos de corpos diferentes o Frankenstein tinha uma certa dificuldade em estrangular, não acertava lá muito bem, de modo que começou a perseguir o aguarelas para o obrigar a dizer onde estava a mãoque ele tinha fotografado e ficar com as duas iguais. O Frankenstein sempre teve um certo fraco pelas simetrias.


José Cardoso Pires, Balada da Praia dos Cães, lá para os inícios.

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